ANGÚSTIA #1

Sinto como quem perdeu algo onde esteve,
Sempre o mesmo sentimento de perda.
Sobre as camas e quartos de hotéis baratos,
Nos bancos das praças, de pedra.
Sinto como a poeira e as cinzas jogadas pelas janelas do quarto,
As raízes que bebo, os barracos das favelas.
Sempre o mesmo sentimento de pedra.
Quando me dei conta, estava sentado por trás de um cemitério,
esperando um ônibus.
Com a impressão de ter esquecido as chaves de casa,
Num lugar onde não era casa, -chaves- de uma casa que também não era.
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Anatomia de um crime

Os verbos percorrem os ossos da minha face,
Em ecos de pegadas no chão metálico de minha cavidade craniana…

Procuro palavras espalhadas pelo chão e não encontro.
O que usarei como escudo dessa vez?
Que outra luta ou fuga habitaria nos meus sonhos sem que eu falasse?
Fui roubado.
E nem mesmo os teus sons me invadem mais,
E nem mesmo em sonhos vejo mais,
E nem mesmo sonhos sonho mais.

Quisera eu sonhar como o tempo em que roubaste meu coração.
E meu pulmão, e as veias do meu pescoço,
Ou pulsar como o peito vazio que deixastes.
E as paredes dos meu punhos que quebrastes,
E minhas costelas por dentro vandalizastes,
E os meus pés que nos tarsos rompestes,
E hoje ando sem falanges a me equilibrar.

E aos que dizem que não foi roubo, e que canto estórias,
Tenho provas! A ausência daquilo que me falta,
E sempre encontro contigo.

Aos pedaços

Pensei que era um espelho, era um caco.
Mas todos os espelhos são cacos,
Como todos os vidros o são,
E todas as outras coisas que se dizem inteiras,
E se juntam para dizer que pedaços não contam.
A vida toda é um pedaço apenas de um inteiro.

Pessoas são só pedaços aos pedaços de vários cacos.

Tentando me olhar em ti, um caco teu entrou no meu peito
E nunca mais saiu,
Agora sempre que eu me mexo rasga mais um pouco.
Mas é só mais um pedaço que eu vou ter que arrancar de mim.

Na arqueologia poética métrica do meu encanto,
Das dores que me incomodam pra sempre enquanto canto,
O implante no pescoço me grita que tenho partes,
E esses são todos eus,
Lascas presentes, ausentes cacos.
Fragmentos de metal que largo pelos dedos.
Dos meus pensamentos, arames farpados que hoje me abraçam carinhosamente
por todos os lados.

Náusea #12

Todo dia um anjo perde as asas,
Quando se torna avião de carga.
Todo dia a gente descobre um otimismo novo pra socar num travesseiro de plumas.

Mandem-me pedras no dia do meu enterro,
Façam uma muralha com elas,
Protejam meus meninos dos lobos. Eles mereciam um presente melhor,
Apenas eles, talvez.

Sempre que se distrai, um anjo aparece,
E se torna indiferente depois.
E se escondem em muros de vidro, e grades de concreto, e voam baixo, quase sem respirar.
Porque traficantes de vida vendem seu ar.

 

J.Caetano Jr.

Náusea #11

Posso sentir a vibração do vento na viseira do capacete.
Numa outra realidade, me sento numa calçada,
Indiferente a tudo.

Meus dedos parecem cacos de gelo trincando no calor,
Acompanham olhos paralisados.
O asfalto também vibra, dialoga com o vento,
Que é como navalha no frio da minha garganta,

Que é como meu pensamento no fim de um dia de trabalho,
Que é como o convívio com gente medíocre.

De esquina em esquina a expectativa de um choque,
Posso sentir a vibração se espalhar,
No meu corpo frio.
Frenético.

 

J.Caetano Jr.

Náusea #10

Não lembro nem metade do que pensei,
Pensei escrever uns últimos versos
Versos esperançados, mas a chuva não deixou.

Ontem o sol estava mordido,
E o pedaço que faltava era em mim.

Acordo e tropeço em pessoas, de manhã,
Antes do café e depois de dormir.

A náusea nunca finda na existência,
Como o silêncio que virá a Ser no fim dos fatos, apenas.

Entre ecos e sons produzidos ao acaso,
Cercado de entulho e informação caótica,
Fecho os olhos e contemplo tudo o que há:

Discurso, barulho, promessas, O sublime.
Transcendentalidade misteriosa das palavras.

Fragmentos furtacor de retinas,
Lentes que captam sinais estelares.

J.Caetano Jr.

Náusea #9

No vislumbre da familiaridade de um sonho,
Meus sentidos desarmados.

Sigo astronomicamente desconexo,
Faço piadas com as pessoas à mesa -que já não estão lá.

Homens queimam flores ao meu lado,
Não me vêem.

Pessoas se movem como planetas em elipses perfeitas.
Algumas atrações, balanços osmóticos, espaços sinápticos.

Numa cadeira de balanço, um jovem lembra meu avô.
Sinto o cheiro do seu cigarro.

Vejo a rua, e as garrafas e os bêbados dançando,
Cadeiras de plástico banhadas de sereno,
As curvas da barra achatada da grade do boteco,

O dia ainda suspenso na penumbra de ontem,
E eu, estrangeiro a tudo.

 

J.Caetano Jr.